Ney Matogrosso por Badi

Ney Matogrosso nasceu e a música brasileira não tinha ideia de que por traz daquele menino introspectivo adormecia um vórtice.

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Quando a cortina abre, o que presenciamos em cena não é o Ney de Souza Pereira, nascido na pacata Bela Vista, no interior de Mato Grosso do Sul, mas a alma de um dos artistas mais incríveis e completos que já tivemos. Ney é único e certamente o anjo que o escolheu para encarnar sabia que encontraria ali ingredientes perfeitos e bem temperados para criar uma receita inovadora, picante, de sabores intensos e coloridos.

Para ser bem sincera acho que apesar de desconfiar que ele tenha um ritual para se transformar em Ney Matogrosso e subir ao palco, enquanto se maquia e veste figurinos, é o teatro todo que se transforma para recebê-lo. Como se o camarim virasse um entendido em eletrostática, abraçando suas cargas elétricas em repouso e o palco em eletrodinâmica, observando o comportamento dessas mesmas cargas elétricas em movimento. Ou seja, ele e o teatro entram em comunhão à serviço das ciências naturais e leis da física, onde o magnetismo e a eletricidade acontecem.

Fora do palco Ney gosta de estar consigo mesmo e se preserva. Passou a infância praticamente descobrindo-se em silêncio, cercado de natureza por todos os lados e crescendo dono de uma ilha particular, onde vivem seres que afloram quando visita a ribalta. Ele afinal encontrou o equilíbrio entre suas polaridades.

Nascido com tessitura vocal rara, de contratenor, canta com voz aguda, afinadíssima, sensível e inconfundível. O que nos comprova a teoria de que veio singular. Afinal ele não é um homem comum. No começo achava estranho mas foi essa voz que o levou ao convite para integrar o histórico ‘Secos & Molhados’, no início dos anos setenta. Em plena ditadura o grupo e suas transgressões funcionaram como uma válvula de escape para a sede de expressão do povo brasileiro.

Todavia tinha suas próprias vontades, afinal foi ele quem levou o rosto maquiado, a sensualidade, a fantasia e a atitude para a cena do grupo. (Interessante observar que a banda norte-americana ‘Kiss’ nasceu na mesma época. Seriam da mesma família de anjos encarnados?). Enfim, Ney saiu do grupo e se infiltrou pelo universo de suas próprias criações artísticas, onde continuou a explorar as possibilidades que continuassem a exercitar sua alma hippie. Sinônimo: Livre. No palco personifica nossas matas, índios, minotauros, seres mágicos e encantados.

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Seu Jorge por Badi

Quem é Jorge Mário da Silva? Provavelmente seus amigos de infância poderiam dizer que foi o cara que conseguiu ‘dar certo na vida’.

Foto: Nana Moraes/Divulgação

Foto: Nana Moraes/Divulgação

Sim, com certeza Seu Jorge (apelido dado pelo amigo e baterista Marcelo Yuka), deu certo na vida. Um daqueles casos onde a pincelada divina no princípio se apresentou um pouco caótica, mas que no aprimoramento pessoal do indivíduo, desdobrou-se em aquarela extraordinária.

Seu Jorge nasceu em Belford Roxo (RJ), conheceu na pele as injustiças sociais das favelas, experimentou no estômago os preconceitos idiotas, viveu pelas ruas, dormindo sobre concretos e se cobrindo com estrelas.

Por entre chuvas e sóis escaldantes, a arte aflorou-se pelos caminhos de sua percepção e mudou os rumos de sua vida. Pronto, a pincelada divina encontrou papel especial e fez-se colorida.

Descoberto pelo clarinetista e incrível Paulo Moura, fez um teste para um musical e daí nunca mais parou. Logo depois integrou a banda Farofa Carioca e com eles gravou seu primeiro disco ‘Moro no Brasil’, que de cara foi lançado no Brasil, Portugal e Japão.

Ninguém mais seguraria Seu Jorge e seu ‘Cidade de Deus’, filme em que estreou em 2002, no papel de Mané Galinha, ganhando reconhecimento internacional.

Nesta época eu já viajava por este mundo e certa vez, na França, soube que aquele ator que cantava estava hospedado no mesmo hotel que eu e mais… descobri que participaríamos do mesmo festival. Não o conhecia na época, mas ele foi muito gentil e, inclusive, deu uma canja no meu show… No retorno à Paris viajamos no mesmo trem e entramos, na verdade, em uma viagem de amizade que se perdura até hoje.

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Marina Lima por Badi Assad

Marina Lima, adocicada como a fruta, meiga, mas também, assim como a persa, um pouco ácida…

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Sua personalidade contida sempre trouxe um vulcão infinito de ideias. Quando Marina expõe sua lava, a derrama quente, viva, poderosa. Um jeito Marina Lima de ser.

Marina nasceu no Rio de Janeiro, mas passou a infância nos Estados Unidos. Sofreu um tanto, tanto que seu pai, para acalentá-la, deu-lhe um violão de presente… e que presente. Ela domou o instrumento, que passou a ser companheiro de vida.

Enquanto morava por lá não era nada próxima ao irmão Antônio Cícero, mas como essas coisas de destino não desacontecem, em um dia, aparentemente sem nada especial, encontrou um de seus escritos e começou a cantarolá-lo. Ele perguntou do que ela precisava para aquilo se transformar em letra de música. Ela explicou e ele entendeu. Simples assim. Suas canções são pérolas da nossa MPB. Aquele dia os trouxe em comunhão que poucos irmãos e parceiros musicais atingem. Muitos da nata Brasileira gravaram suas canções: Gal Costa, Zizi Possi, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Lulu Santos…

São 19 cds. Cada um trazendo uma proposta especial e relativamente condizente com o que vivia na época. A arte dela, então, trespassa pelo reflexo de suas indagações e descobertas pessoais.

No horóscopo chinês ela é Carneiro. Eu li: ‘Quem nasce sob sua influência é íntegro, sincero e se emociona com facilidade. Tem tendências a ser uma pessoa gentil e compassiva. Apesar de todas as qualidades, não suportam muita disciplina ou críticas e acham muito difícil trabalhar sob pressão’.

Não a conheço pessoalmente, mas depois de ler ‘Marina Lima-Maneira de Ser’ (escrito por ela), acho que sim, ela nasceu no ano do Carneiro. Devorei o livro em 2 dias, com deleite. Seu jeito de escrever é leve ao mesmo tempo que denso. Confirmei: Ela sabe das coisas….

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Luhli e Lucina por Badi

Falar de Luhli e Lucina não é só falar de música. É falar de paz, amor, da força da natureza.

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Elas não cantavam ou compunham juntas suas canções que se tornaram clássicos em gargantas alheias, elas viviam aquelas melodias na carne.

Luhli e Lucina são viscerais… Usufruíram intensamente dos conceitos hippies dos anos setenta, vivendo um triângulo amoroso com o fotógrafo Luiz Fernando, em comunidade alternativa, com cabelos rebeldes, pés no chão, violões e tambores aos quatro ventos.

Paralelamente ao que reinava na época brasileira bossa-novística, elas lançaram-se no mundo independente e foram uma das primeiras artistas a se aventurarem pela via então pouco conhecida. Abriram caminhos, como aqueles que se abrem quando olha-se para a montanha e se pensa, ali tem cachoeira e segue com foice em punho, abrindo a trilha.

Elas quando subiam ao palco não cantavam suas músicas e melodias ou tocavam seus instrumentos somente. Elas levavam uma nação inteira de orixás e suas forças. Mudavam o repertório de acordo com a energia que sentiam da plateia.

A umbanda, mergulhada nelas, brotava em ritmos densos e coerentes com suas crenças e criações artísticas.

Compuseram uma canção que diz ‘Suba na baleia e descobrirás o mar’… E assim nadaram em seu dorso, como a menina Pai no filme ‘Encantadora de Baleia’, de Niki Caro, onde a força da mulher rompeu barreiras e tradições na Nova Zelândia. No caso uma menina de 11 anos, contrariando o legado Maori onde todo o ensinamento espiritual seria passado ao primeiro filho homem. Como este irmão nunca nasceu, a menina teve que provar sua força e moldar sua própria história, rompendo assim uma herança milenar onde o chefe da tribo deveria ser homem. Luhli e Lucina foram assim, com suas músicas e crenças.

Certa vez as convidei para tocar em um clube de música que tive em minha casa, o ‘Musicasa’, quando morei em São Paulo ao lado de Rodolfo, nos anos 90. Nossa casa tinha paredes de vidro e do lado de fora o jardim invadia os cômodos. Elas vieram, abri um caderno de visitas. Luhli escreveu um poema como um jorro de luz. Levou o tempo que sua caneta percorreu a página em branco. Era profundo e ela tinha, com suas antenas, quase marcianas, captado tudo o que aquela casa era e representava.

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Marisa Monte por Badi Assad

Quem vem atrás das maravilhas cariocas, de frente ao mar, abençoada por Deus e pela natureza? Marisa Monte. Ela vem…

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Marisa quando criança sonhava em ser cantora de ópera, mas subiu ao palco pela primeira vez em um musical de rock dirigido por Miguel Falabella, ‘Rocky Horror Show’.

Desde muito cedo descobriu que ao mesmo tempo em que amava a cantora lírica Maria Callas, amava também a de jazz Billie Holiday; que ao mesmo tempo em que ouvia rock, adorava cantar o mais tradicional samba carioca. E foi assim, dona de uma audição eclética e de uma mente elástica, que Marisa Monte se inventou.

Seu primeiro CD ‘MM’ (1989), mostra esta destreza quando canta magnificamente bem estilos tão distintos, esses todos que povoam seu universo musical através de sua própria emoção. Foi ela a primeira a inverter isto tudo, a colocar fogueira onde antes havia vento. Cantou ‘Speak Low’ reverenciando Billie, fez outras pessoas descobrirem ‘Comida’ (Titãs), fez crianças cantarem ‘Chocolate’ (Tim Maia) e gravou seu primeiro grande sucesso.

“Bem que se quis”… Mas já não há caminhos pra voltar… Nelson Motta foi quem fez a versão em português (música originalmente italiana, composta por Pino Daniele). Não haveriam mesmo caminhos para voltar, pois Marisa veio pra ficar.

Foi Nelson também quem encontrou Marisa pelos bares italianos, quando ela por lá andava com seus anseios líricos e oníricos… Pois paralelamente ao mundo operístico, ela cantava em bares, e foi lá onde o pescador Nelson descobriu esta pérola e nos revelou, raríssima.

Nelson dirigiu, ao lado de Walter Salles Jr seu primeiro show, antes mesmo de ‘MM’ ser lançado, para a então TV Manchete. Lembro-me bem daquelas madeixas encobrindo meio rosto, aquela boca encarnada, por onde saía aquela voz! Walter já tinha estreado ‘Central do Brasil’ e encontrou onde pousar seu olhar, também de midas, na direção de um trabalho iniciante. Eles souberam ver através de olhos de cristal. Viram e apostaram, que aquela mulher se transformaria em muitas, que revolucionaria a música no Brasil, que se tornaria uma das melhores cantoras que nossa terra produziu, uma compositora de sucessos, uma pesquisadora da nossa história, uma produtora impecável, uma rainha.

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Gal Costa por Badi Assad

Mariah Costa Pena predestinou que sua filha seria musical. Quando o rebento ainda pulsava em seu ventre, ouvia música clássica ritualisticamente. A intenção era a de influenciar sua gestação e ver se essa magia pudesse acontecer… E aconteceu….. Maria da Graça nasceu.

Coincidentemente (ou não) sua filha, ainda menina, ficou amiga das irmãs Sandra e Dedé, que se tornariam esposas de? Gilberto Gil e Caetano Veloso. Pronto, o destino estava encaminhado.

No início da adolescência Maria foi seduzida por uma voz que contracantava as corpulentas que ouvia na rádio. João Gilberto chegava manso e intimista.

Aos 15 anos Maria da Graça cantava e se acompanhava ao violão pelas festas de Salvador, com a voz suavizada por João. Foi assim que ao lado dos novos amigos Gil, Caetano e Maria Bethânia, os futuros ‘Doces Bárbaros’, começou a visitar os palcos, lugar onde faria história.

Não muito tempo depois, essa voz Libriana (26/Set) estaria provando o primeiro de muitos equilíbrios de sua ‘Balança’: Aquela mulher de voz mansa se transformaria em leoa.

Com o Tropicalismo marcando época, nossa representante da Contracultura (movimento surgido nos Estados Unidos na década de 60, contestando o caráter social e cultural da época) tinha desabrochado. Já como Gal Costa, aquela nova mulher interpretava o que era ‘Divino e Maravilhoso’; Cantava e se comportava extrovertida e irreverentemente; Infiltrava na veia Brasileira uma nova corrente, musical e comportamental…

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Zizi Possi por Badi Assad

Eu ainda era menina quando ouvi sua voz pela primeira vez. Isso pois ouvia Chico Buarque.. Eu já sabia das coisas….

Entrava então aquele cristal lapidado, brilhante, rasgando o ar e me fazendo entender uma dor inimaginável para uma criança com menos de dez anos de idade. ‘Pedaço de mim’ falava de uma fisgada em um membro perdido do corpo, falava do revés de um parto, de arrumar o quarto de um filho que já morreu. Ufa… Mas eu entendia, porque o sentimento colocado naquela voz, enquanto cantava, me infiltrava e eu chorava.

Zizi Possi nasceu no bairro do Brás, reduto da colônia italiana em São Paulo. Ela, de origem napolitana, foi muito ligada à música erudita quando criança, estudando canto e piano. Quando tinha 17 anos se mudou com o irmão, o incrível diretor teatral José Possi Neto, para a Bahia. Em Salvador estudou composição e regência na UFBA. Porém descobriu que não era neste curso que suas ambições artísticas reinavam o coração. Se inscreveu no curso de teatro. Pouco tempo depois o irmão fez as malas, quando recebera bolsa de trabalho para morar em Nova York. Zizi foi levá-lo ao aeroporto, despediu-se em lágrimas e disse: “Quando vi o avião sumindo no ar, entendi que minha vida estava, a partir daquele momento, por minha conta. Me deu uma solidão… Foi quando percebi que a Bahia já não fazia mais sentido para mim”.

Que bom que ela fez aquele curso de teatro, pois acredito ter sido fundamental para incorporar nela matéria-prima consciente e densa sobre interpretação. Zizi é, sem sombra de dúvidas, uma das melhores cantoras-intérpretes de toda a história da MPB… E a despedida do irmão com certeza lhe rendeu algum estofo para gravar ‘Pedaço de mim’…

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