Barbatuques por Badi

Há muitos anos atrás, morei na esquina de uma rua no bairro Alto de Pinheiros, em São Paulo. Na outra ponta da alameda morava Fernando.

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Curiosamente sempre tivemos interessantes contemporaneidades. Primeiro a coincidência de coexistirmos enquanto moradores desta rua arborizada em plena capital paulista, algo por si só já positivo; segundo o fato de já tocarmos violão na época em que soubemos da existência um do outro; terceiro iniciarmos um trabalho com o incrível músico-mestre Stênio Mendes Nogueira que, embora separadamente, nos levou ao mesmo lugar.

Neste trabalho, primordialmente de pesquisa, aprendemos que a música podia vir de um instrumento muito mais próximo a nós do que imaginasse nosso querido violão (ou flauta, no caso do Fernando também). Descobrimos que nosso próprio corpo e voz eram impressionantes instrumentos e que se aprendêssemos os mistérios de suas inúmeras potencialidades, criaríamos novos malabarismos e com isso novas possibilidades criativas e musicais despontariam e… despontaram…

Em 1995 outra coincidência em nossos caminhares: enquanto eu engatinhava pelo universo percussivo vocal e me lançava no mundo discográfico com meu primeiro CD ‘Solo’ (lançado somente nos Estados Unidos e Europa), o Fernando iniciava o impressionante grupo Barbatuques, onde o corpo virou o instrumento primordial. Onde palmas, estalos de dedos, batuques no peito, ritmos marcados com os pés, sons onomatopaicos e muito mais davam vida ao imaginário poético-rítmico-musical de corpos que praticamente dançavam em cena enquanto serviam de base para uma experiência lúdica, intensa, criativa, energética, tribal… Talvez seja por isso que eles sejam tão incríveis, porque nos levam de volta ao que há de mais primário: a música, afinal, nasceu em nós, enquanto caminhamos, enquanto sentimos a batida do coração ou enquanto nossas cordas vocais vibram.

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Hermeto por Badi

Hermeto Pascoal nasceu em 1936, sob o signo de câncer. Nasceu diferente, raro, pois trouxe na pele, nos olhos e pêlos a ausência de pigmentação.

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Os albinos também são conhecidos como ‘filhos da lua’ por se incomodarem com a luz do sol. É interessante porque simbolicamente o astro que rege o canceriano é também a lua.

Então acho que no dia em que Hermeto nasceu, o brilho lunar estava diferente e deve ter encantado o destino daquele menino, pois desde criança Hermeto olha para o mundo com outros olhos. Como se fosse ele um ímã de sons. Os objetos em suas mãos não são simples objetos, eles se transformam em música. Os mistérios da lua através de seus dedos.

Quando era criança os canos de mamona de jerimum viravam pífano e a água da lagoa se transformava em música cadenciada, enquanto ele, com certeza, já absorvia o que mais tarde seria sua ‘Sinfonia dos Sapos’. O que sobrava de material do avô ferreiro se pendurava no varal e ele fazia? Música… E assim foi por toda sua vida. Quem se lembra quando entrou com uma porca no palco e dela tirou sons que ritmicamente completavam a composição? Ou quando fez um trabalho maravilhoso chamado ‘O Som da Aura’, onde harmonizou locutores de jogos de futebol, fazendo suas locuções se transformarem em melodia? Não seria isso tudo mesmo magia?

O primeiro instrumento tradicional que Hermeto tocou foi um acordeon de 8 baixos de seu pai, depois vieram pandeiros, pianos, flautas, violões e tudo o mais que seu toque de midas encostasse. Certa vez o vi contar que ainda menino ficou amigo do porteiro do pequeno museu de sua cidade, que o deixava entrar na madrugada para que ele se divertisse com o piano lá dentro. Anos mais tarde viu uma apresentação (não me recordo de quem) onde o nome dos acordes foram citados e Hermeto na plateia pensou ‘Ah! Então é assim que aquelas notas juntas se chamam?’ Ele nasceu sabendo e saiu criando.

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O nome dele podia bem ser Filipe Gato…

Foto: Pops Lopes

Foto: Pops Lopes

..pois além de ser muito bonito e atraente, quando entra no palco nos mira com aqueles olhos penetrantes e faz sua voz roçar por entre nossos ouvidos e sentimentos. De vez em quando ronrona em nosso cangote, outras mia bem alto.

Filipe Catto (este sim seu nome) não demonstra ter fronteiras que não possa ultrapassar. Seus saltos são livres e parece-me que sempre sabendo onde pousar.

Dono de uma tessitura rara (contratenor) já foi chamado de ‘O novo Ney Matogrosso’, mas ele é muito diferente. Sua atitude é outra, sua energia completamente diferente. Filipe é manso e nos envolve de outra forma. Outro dia brincamos de imaginar quais artistas poderiam ser seus genitores: talvez uma Elis Regina com Cazuza, ou um Johnny Depp com Cassia Eller? Brincadeiras a parte a verdade é que nenhuma mistura seria suficiente para amalgamar-se nele. Filipe nasceu grande. A impressão que tenho é que em seu peito carrega uma montanha gigante, dessas que a gente pode se confortar enquanto ele acarinha nossa cabeça, mas ao mesmo tempo se precisar, fica de pé, põe as garras para fora e vai à luta.

Sua biografia é ainda fresca. Catto nasceu em 1987 em Lajeado, no Sul do país. Desde pequeno cantava ao lado do pai em festas e bailes. Provavelmente foi lá que entrou em contato com tantos estilos anteriores ao seu tempo e, talvez também por isso, os domine tão bem. Filipe entoa qualquer canção que lhe chegue ao coração. Canta como se ele mesmo a tivesse composto. Desde Maysa e Maria Bethânia até P. J. Harvey e Janis Joplin… Passeando com desenvoltura por todos os estilos que lhe atravesse o corpo desde o rock’n’roll e boleros até canções de amor profundo e suas próprias composições.

Apesar de ter um estilo muito próprio de compor, e fazê-lo muito bem, Filipe preza o mundo do intérprete. Está sempre pesquisando novos nomes para passearem em sua garganta. Uma canção na voz dele deve deixar qualquer compositor feliz. Ademais suas releituras são tão pessoais que as vezes se demora para ser reconhecida. Recentemente o vi cantando ‘Virgem’ de Marina Lima e só a percebi quando o refrão chegou. Muito bom mesmo.

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Elza Soares por Badi

Elza Soares não é uma mulher comum. Ela é um fenômeno de força descomunal. Em seu canto, uma vida. Passou por montanhas russas, carrosséis e trampolins; provou sabores e dissabores diversos e sempre emergiu como uma fênix.

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Filha da pobreza, nasceu em 1930 e foi obrigada pelo pai a se casar quando tinha apenas 12 anos. Teve seu primeiro filho aos 13 e o segundo aos 15. Ambos morreram de inanição. Aos 20 já tinha parido outras 5 vezes e entre uma esfregada de chão de uma casa e outra, corria atrás da vida. É assim que começa a biografia de uma das melhores cantora-intérpretes de nossa história. Uma verdadeira lutadora, em todos os sentidos… e como ‘Coisa de Deus’ trouxe na garganta, além dos gritos sofridos, o poder de cantar. Aliás, foi seu canto que a salvou de tudo.

Sua carreira começou quando se aproximava dos 30 anos. Até lá comeu muito prato cuspido pela sociedade. Quando finalmente encontrou porto nos braços do jogador de futebol Garrincha foi praguejada, pois ele era casado e se divorciou para se casar com ela. Algo socialmente proibido e levado até as últimas consequências na época.

Todavia insistiu, resistiu e cantou. Em sua voz ouvimos as profundezas da alegria e da dor. Seu canto traz forças mágicas e faz malabarismos incríveis, inspirados talvez em sua própria vida. Em seu canto ouvimos a elasticidade e suingue de uma mulher que aprendeu a se virar com os bailes da vida. Elza sempre soube tirar dos momentos mais difíceis inspiração e, como o jargão ‘quem canta seus males espanta’, aprendeu a usar a voz como um porto seguro.

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Crianças da Amazônia

Eu fiz, ao lado de Naná Vasconcelos, a trilha musical deste incrível documentário, da Denise Zmekhol, em 2008 ‘Crianças da Amazõnia’.. Vai passar pela primeira vez no Brasil hoje! Desculpa avisar em cima da hora, mas fiquei sabendo agora somente. VEJA