O nome dele podia bem ser Filipe Gato…

Foto: Pops Lopes

Foto: Pops Lopes

..pois além de ser muito bonito e atraente, quando entra no palco nos mira com aqueles olhos penetrantes e faz sua voz roçar por entre nossos ouvidos e sentimentos. De vez em quando ronrona em nosso cangote, outras mia bem alto.

Filipe Catto (este sim seu nome) não demonstra ter fronteiras que não possa ultrapassar. Seus saltos são livres e parece-me que sempre sabendo onde pousar.

Dono de uma tessitura rara (contratenor) já foi chamado de ‘O novo Ney Matogrosso’, mas ele é muito diferente. Sua atitude é outra, sua energia completamente diferente. Filipe é manso e nos envolve de outra forma. Outro dia brincamos de imaginar quais artistas poderiam ser seus genitores: talvez uma Elis Regina com Cazuza, ou um Johnny Depp com Cassia Eller? Brincadeiras a parte a verdade é que nenhuma mistura seria suficiente para amalgamar-se nele. Filipe nasceu grande. A impressão que tenho é que em seu peito carrega uma montanha gigante, dessas que a gente pode se confortar enquanto ele acarinha nossa cabeça, mas ao mesmo tempo se precisar, fica de pé, põe as garras para fora e vai à luta.

Sua biografia é ainda fresca. Catto nasceu em 1987 em Lajeado, no Sul do país. Desde pequeno cantava ao lado do pai em festas e bailes. Provavelmente foi lá que entrou em contato com tantos estilos anteriores ao seu tempo e, talvez também por isso, os domine tão bem. Filipe entoa qualquer canção que lhe chegue ao coração. Canta como se ele mesmo a tivesse composto. Desde Maysa e Maria Bethânia até P. J. Harvey e Janis Joplin… Passeando com desenvoltura por todos os estilos que lhe atravesse o corpo desde o rock’n’roll e boleros até canções de amor profundo e suas próprias composições.

Apesar de ter um estilo muito próprio de compor, e fazê-lo muito bem, Filipe preza o mundo do intérprete. Está sempre pesquisando novos nomes para passearem em sua garganta. Uma canção na voz dele deve deixar qualquer compositor feliz. Ademais suas releituras são tão pessoais que as vezes se demora para ser reconhecida. Recentemente o vi cantando ‘Virgem’ de Marina Lima e só a percebi quando o refrão chegou. Muito bom mesmo.

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Elza Soares por Badi

Elza Soares não é uma mulher comum. Ela é um fenômeno de força descomunal. Em seu canto, uma vida. Passou por montanhas russas, carrosséis e trampolins; provou sabores e dissabores diversos e sempre emergiu como uma fênix.

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Filha da pobreza, nasceu em 1930 e foi obrigada pelo pai a se casar quando tinha apenas 12 anos. Teve seu primeiro filho aos 13 e o segundo aos 15. Ambos morreram de inanição. Aos 20 já tinha parido outras 5 vezes e entre uma esfregada de chão de uma casa e outra, corria atrás da vida. É assim que começa a biografia de uma das melhores cantora-intérpretes de nossa história. Uma verdadeira lutadora, em todos os sentidos… e como ‘Coisa de Deus’ trouxe na garganta, além dos gritos sofridos, o poder de cantar. Aliás, foi seu canto que a salvou de tudo.

Sua carreira começou quando se aproximava dos 30 anos. Até lá comeu muito prato cuspido pela sociedade. Quando finalmente encontrou porto nos braços do jogador de futebol Garrincha foi praguejada, pois ele era casado e se divorciou para se casar com ela. Algo socialmente proibido e levado até as últimas consequências na época.

Todavia insistiu, resistiu e cantou. Em sua voz ouvimos as profundezas da alegria e da dor. Seu canto traz forças mágicas e faz malabarismos incríveis, inspirados talvez em sua própria vida. Em seu canto ouvimos a elasticidade e suingue de uma mulher que aprendeu a se virar com os bailes da vida. Elza sempre soube tirar dos momentos mais difíceis inspiração e, como o jargão ‘quem canta seus males espanta’, aprendeu a usar a voz como um porto seguro.

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Crianças da Amazônia

Eu fiz, ao lado de Naná Vasconcelos, a trilha musical deste incrível documentário, da Denise Zmekhol, em 2008 ‘Crianças da Amazõnia’.. Vai passar pela primeira vez no Brasil hoje! Desculpa avisar em cima da hora, mas fiquei sabendo agora somente. VEJA

Fernanda Takai

Quando cheguei para encontrar-me com a cantora, escritora e compositora Fernanda Takai, ela já me aguardava.

Foto: Bruno Senna/Reprodução

Foto: Bruno Senna/Reprodução

Para iniciar nosso papo perguntei se o vídeo da canção ‘Mon amour Meu bem Ma femme”, com participação especial de Zélia Duncan para seu novo disco ‘Na medida do impossível’, foi feito em sua residência. Ela respondeu positivamente e fez questão de ressaltar que sua casa é protegida por um portão construído de dormentes aparentemente muito pesados mas que, por serem cortados ao meio, são na verdade leves. Assim, sob a aparência forte, se abriga.

Um pouco mais tarde, quando já adentradas no universo de suas produções musicais, filosofamos sobre a possibilidade das músicas terem cor. No meio arrisquei uma pergunta: Qual cor vê sua vida? Ela se suspende e responde de súbito vermelho… por conectá-la ao Japão e à força que traz a descoberta da paz dentro de sua própria guerra, como uma espécie de escudo.

Então concluo que Fernanda se aconchega na aparente timidez, mas que em seu interior abriga uma mulher forte, que imprime marca em tudo o que faz. Seja nas crônicas que escreve ou nas melodias que compõe com ideias imagéticas para que o marido (John Ulhoa) as complete em canção. Seja na pele da mãe de Nina ou como vocalista de uma das bandas mais bem sucedidas do Brasil, Pato Fu, quando mergulhada no universo pop-rock impõe-se com suavidade e lança-se em movimentos conduzidos por mãos inquietas, para que o público sinta-se a vontade e dance.

Fernanda nasceu em Serra do Navio, Amapá. Entrou no barco da vida e, dentre inúmeras viagens, foi incluída, pela revista Time, na lista das 10 melhores cantoras do mundo. Apesar de, com o Pato Fu, ter lançado o disco vencedor do Grammy na categoria infantil ‘Música de Brinquedo’, ela não veio para brincar, mas leva a vida na brincadeira, por acreditar ser aí um dos segredos para manter-se equilibrada.

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Ney Matogrosso por Badi

Ney Matogrosso nasceu e a música brasileira não tinha ideia de que por traz daquele menino introspectivo adormecia um vórtice.

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Quando a cortina abre, o que presenciamos em cena não é o Ney de Souza Pereira, nascido na pacata Bela Vista, no interior de Mato Grosso do Sul, mas a alma de um dos artistas mais incríveis e completos que já tivemos. Ney é único e certamente o anjo que o escolheu para encarnar sabia que encontraria ali ingredientes perfeitos e bem temperados para criar uma receita inovadora, picante, de sabores intensos e coloridos.

Para ser bem sincera acho que apesar de desconfiar que ele tenha um ritual para se transformar em Ney Matogrosso e subir ao palco, enquanto se maquia e veste figurinos, é o teatro todo que se transforma para recebê-lo. Como se o camarim virasse um entendido em eletrostática, abraçando suas cargas elétricas em repouso e o palco em eletrodinâmica, observando o comportamento dessas mesmas cargas elétricas em movimento. Ou seja, ele e o teatro entram em comunhão à serviço das ciências naturais e leis da física, onde o magnetismo e a eletricidade acontecem.

Fora do palco Ney gosta de estar consigo mesmo e se preserva. Passou a infância praticamente descobrindo-se em silêncio, cercado de natureza por todos os lados e crescendo dono de uma ilha particular, onde vivem seres que afloram quando visita a ribalta. Ele afinal encontrou o equilíbrio entre suas polaridades.

Nascido com tessitura vocal rara, de contratenor, canta com voz aguda, afinadíssima, sensível e inconfundível. O que nos comprova a teoria de que veio singular. Afinal ele não é um homem comum. No começo achava estranho mas foi essa voz que o levou ao convite para integrar o histórico ‘Secos & Molhados’, no início dos anos setenta. Em plena ditadura o grupo e suas transgressões funcionaram como uma válvula de escape para a sede de expressão do povo brasileiro.

Todavia tinha suas próprias vontades, afinal foi ele quem levou o rosto maquiado, a sensualidade, a fantasia e a atitude para a cena do grupo. (Interessante observar que a banda norte-americana ‘Kiss’ nasceu na mesma época. Seriam da mesma família de anjos encarnados?). Enfim, Ney saiu do grupo e se infiltrou pelo universo de suas próprias criações artísticas, onde continuou a explorar as possibilidades que continuassem a exercitar sua alma hippie. Sinônimo: Livre. No palco personifica nossas matas, índios, minotauros, seres mágicos e encantados.

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